Problemas digestivos? A Terapia Manual ajuda-te!!

O que raio tem a ver a terapia manual com problemas digestivos? Pode mesmo ajudar?


Se te fazes a mesma pergunta ou agora simplesmente estás curioso, este texto é para ti.


Vou resumir-te a ciência em relação à utilidade da terapia manual para a prevenção e reversão de patologias digestivas.


Em primeiro lugar, quero que saibas que para o normal funcionamento de uma estrutura biológica, incluindo órgãos digestivos, são precisos os seguintes pontos: -Mobilidade adequada; -Vascularização adequada; -Controlo neurovegetativo adequado. Mobilidade? O que é isso? Os meus órgãos precisam de saber fazer a espargata, ou ter um agachamento bonito? Nah! - Aplicado a um órgão visceral a mobilidade a que me refiro, trata-se da capacidade de movimento em relação às estruturas envolventes do órgão em questão. Ou seja, é importante que não haja restrições nos tecidos que envolvem o órgão desde as membranas serosas ou fibrosas que o envolvem aos ligamentos que o suspendem, em geral a fáscia ou tecido conjuntivo, ou de conexão. O movimento do órgão no espaço, ou na cavidade abdominal, ou torácica no caso das vísceras abdominais, são guiados por estas estruturas de conexão e suporte. Permitem-lhe que se adapte à respiração e locomoção, mas também lhe permitem receber sangue livremente, bem como condução de informação nervosa adequada e assim que todos os reflexos automáticos necessários ao seu bom funcionamento ocorram desimpedidos. Somos então conduzidos ao sistema circulatório e ao segundo ponto, vascularização adequada. Mas afinal o que é que eu quero dizer com isto, perguntas tu! Daqui quero que entendas a importância do sangue, mas também da linfa, para uma dada estrutura, nomeadamente uma víscera como é o caso do cólon, ou intestino grosso. A adequada passagem destes fluidos essenciais à vida asseguram: -Chegada de nutrientes como oxigénio e glicose às células do tecido; -Eliminação de toxinas resultantes do metabolismo e normal funcionamento celular; E isto, por sua vez, com a ajuda da movimentação adequada e liberdade de movimento em todos os planos leva ao adequado desenvolvimento, funcionamento e recuperação da estrutura. Mas estes passos todos são ainda condicionados pelo sistema nervoso, em grande parte o sistema nervoso periférico, o sistema nervoso autónomo ou neuro-vegetativo. Nomeadamente pelos ramos simpáticos e parassimpáticos. O sistema Simpático prepara-nos para estarmos ativos, para a luta ou para a fuga, através de inúmeros mecanismos. Entre eles: -O aumento do débito cardíaco (+frequência cardíaca e/ou +contractilidade cardíaca); -Dilatação das vias aéreas superiores; -Angioespasmo visceral-» diminuição do diâmetro dos vasos arteriais para os órgãos digestivos e consequente redireccionamento de sangue para o cérebro, pulmões, coração e musculatura esquelética);

-Etc. Já o sistema Parassimpático prepara-nos para recuperação, para digerir e descansar, mais uma vez através de uma série de mecanismos em grande parte contrários ao sistema simpático: -Vasodilatação visceral; -Aumento das secreções digestivas; -Aumento da motilidade visceral (como peristalses para movimento do conteúdo alimentar ao longo do trato digestivo); Essencialmente redirecionando sangue para o trato digestivo primariamente. Daí nunca ser recomendável fazer a digestão e trabalhar ao mesmo tempo ou fazer exercício físico intenso em digestão. Menos refeições = mais produtividade, mas este é um tema para outro artigo 😉! Com a adequada função destes sistemas as vísceras têm a oportunidade de funcionar como deve de ser, principalmente com a conjunção da liberdade de movimento no espaço e boas trocas de fluidos. Mas estes podem ser dos primeiros a ser afetados, condicionando como um maestro, o funcionamento dos outros membros da orquestra (sangue, linfa e movimento). Para ser mais específico, temos que introduzir mais uns quantos conceitos científicos trazidos por Irwin korr e Denslow (1947) e Van Buskirk (1990) e muitos outros autores que comprovaram e adicionaram a estes conceitos até aos dias de hoje. Deixando grande parte do jargão da fisiologia médica, estatística e informação geralmente apenas útil para profissionais de saúde, vejo ser importante entender os seguintes conceitos: -Disfunção somática; -Metâmera; -Facilitação medular. 1º-Disfunção somática: É uma disfunção de um tecido qualquer no corpo. A ausência de funcionamento adequado à saúde ótima, mais tarde usado por osteopatas como disfunção/lesão osteopática. Trata-se de um estado pré-patológico em que determinada estrutura visceral, fascial, vascular, articular, ou muscular não se encontra a 100% das suas capacidades e ultimamente, quando mantido, leva à patologia médica.

2º-Metâmera: É um conceito muito utilizado nos trabalhos do fisiologista Korr, mas também de osteopatas contemporâneos. Pretende expressar a ligação neurológica entre vasos sanguíneos, linfáticos, músculos, vísceras, articulações, estruturas ósseas, pele e mais tarde fáscia (F.Ricard e colegas, 2016). Essencialmente tudo isto para dizer que a determinado nível da coluna vertebral corresponde um nível medular do sistema nervoso central e uma raíz nervosa que enervam todo o tipo de estruturas do corpo organizados em grupos ou níveis. No mesmo nível é transmitida informação posicional de articulações, informação de pressão sanguínea de vasos, nível de distensão de vísceras… mas também passadas informações que permitem reflexos automáticos de alterações de tónus de musculatura para alterar o posicionamento de uma articulação, contração ou relaxamento de vasos sanguíneos, secreção de enzimas digestivas… etc. Assim o nosso corpo despende de menos energia para processar informação de todas as estruturas e produzir respostas de adaptação a problemas das estruturas, pois estão todas na mesma caixa ou nível medular ou metâmera. É eficiente, mas tem as suas implicações clínicas. Como o corpo não sabe exatamente qual a estrutura afetada vai criar adaptações em todo o nível metamérico devido a uma disfunção só. Criam-se dermalgias reflexas (dores de pele referentes à zona em questão, espasmos musculares superficiais, espasmos viscerais, angioespasmos… tudo em resposta à disfunção de uma só estrutura do grupo. O mais comum são as disfunções articulares e também as viscerais, e são as que mais perpetuam no tempo este tipo de disfunções. Com consequências a curto e longo prazo, algumas já mencionadas. Para não falar da afeção das estruturas envolventes não pertencentes ao nível em questão. Falta de mobilidade aqui vai causar hipermobilidade como reação ali e acoli. Falta de sangue aqui vai criar falta de mobilidade. Informação nervosa inadequada vai criar angioespasmos e espasmos viscerais limitando a chegada de sangue. Sem falar de consequências posturais e em estruturas à distância pelas leis da biomecânica, pela fáscia e pela força da gravidade também. Vocês imaginam as capacidades de perpetuação deste tipo de ciclo vicioso no tempo. Ultimamente resulta a patologia, perda de capacidade funcional e de bem estar. 3º Facilitação medular Mais uma vez introduzido por Korr e Denslow (1947) e mais tarde explorado, e entretanto confirmado por Van Buskirk em 1990 com o termo de Sensibilização Central com um modelo mais baseado na transmissão da dor, quer dizer essencialmente que um nível metamérico que sofre uma disfunção somática encontra-se com um limiar de excitabilidade mais baixo. Isto quer dizer que nesse mesmo nível afetado é mais fácil de ser sentida a dor e ser conduzida informação periférica, pois é preciso um estímulo menos intenso para a propagação da informação nervosa. Como um copo vazio versus um copo meio cheio. Qual acham que precisamos de adicionar menos água até transbordar? Pois é! O menos cheio. Este é o nosso nível com disfunção somática. O nível facilitado. O que mais produz dor, o que mais condiciona o bom funcionamento das estruturas envolvidas. Aquele ao qual o corpo vai reagir mais facilmente a novos estímulos. Então resumindo: -Precisamos que nutrientes cheguem aos órgãos e precisamos de expelir toxinas. +Nutrientes -Toxinas=Bom funcionamento das estruturas. Como é que isto é assegurado? -Movimento adequado das estruturas; -Aporte sanguíneo e linfático adequado às estruturas (como uma boa canalização); -Informação nervosa adequada (como um bom sistema de comunição para quando uma estrutura precisa de ajuda a possa pedir, para quando precisa de uma reparação a possa pedir, para quando precisa de um ajuste ele seja feito); Agora, como raio é que a terapia manual pode ajudar no meio disto tudo? Simples:

1º-Com as mãos é-nos possível eliminar barreiras ao movimento das vísceras. Destruir aderências e restituir elasticidade e capacidade contrátil às vísceras, com técnicas de manipulação, técnicas funcionais posicionais ou técnicas fasciais; 2º-Com as mãos é possível acelerar o fluxo de sangue e de linfa, acelerando assim a nutrição dos tecidos e a eliminação de toxinas. Isto é possível com técnicas de bombeio, por exemplo; 3º-Com as mãos é-nos possível eliminar bloqueios articulares e disfunções viscerais que perpetuam por diversos mecanismos o mau funcionamento das vísceras através de perturbação da motilidade visceral, diminuição do fluxo de sangue e de linfa, diminuição da mobilidade e alteração das secreções enzimáticas e de sucos digestivos no geral, como um maestro descoordenado prejudica a sua orquestra. Isto é possível através de técnicas articulatórias, manipulativas e funcionais articulares e viscerais.

Posto isto e apesar dessa massiva explicação aos olhos de muitos, apesar de muito pouco profunda em termos de fisiologia, anatomia e medicamente falando, a terapia manual apresenta bons resultados, explicação e ciência cada vez mais sólidas mas não é tudo. Em primeira instância o que cria a ausência de saúde e ultimamente presença de patologia é o estilo de vida do paciente, com todos os seus fatores e esferas envolventes desde a maneira e quantidade de movimento, à sua alimentação e hábitos alimentares ou até o seu estado emocional como vêm explicar a Epigenética e Psiconeuroendocrinoimunologia. Mas para quem quer começar a encontrar saúde a terapia manual é uma ferramenta fantástica especialmente nas mãos de profissionais que te podem ajudar a modular o teu estilo de vida e o caso dos problemas e patologias digestivas não é exceção!


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-Richard L. Van Buskirk D.O. (1990). Downloaded from https://jaoa.org by guest on 11/26/2019. Journal of The American Osteopathic Association, 90(9), 792–809;

-Denslow, J. S., Korr, I. M., & Krems, A. D. (1947). QUANTITATIVE STUDIES OF CHRONIC FACILITATION IN HUMAN MOTONEURON POOLS. American Journal of Physiology-Legacy Content, 150(2), 229–238. https://doi.org/10.1152/ajplegacy.1947.150.2.229.

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